Hierofania – O Transcendente e a Expansão da Consciência

Mircea Eliade (Bucareste, 9 de março de 1907 — Chicago, 22 de abril de 1986) foi um professor, historiador das religiões, mitólogo, filósofo e romancista romeno, naturalizado norte-americano em 1970.

Hierofania é um termo utilizado primeiramente por Mircea Eliade para se referir à manifestação do sagrado em objetos, lugares e pessoas, cuja conotação é dotada duma base dualista onde o profano se encontra em perene oposição. Em torno da noção sacra nota-se a construção de elementos arquetípicos que se refletem de formas similares em diversas tradições civilizatórias, quanto mais se desnuda tais representações, sejam elas geográficas, matemáticas, ritualísticas e mitológicas, entre outras, mais se penetra em suas sincronicidades, como se estas fossem marcas inerentes ao homem, cujo anseio natural humano sente a necessidade de expressá-las (mesmo que de forma inconsciente).

Dentro destas representações hierofantes é possível adentrar em análises a partir de pontos de vista distintos; socioculturais, científicos e ate filosóficos, apesar da abrangência de abordagem, as nuances contrapostas, as opiniões racionalizadas e a falta de uma vivência particular dos próprios estudiosos de várias áreas, os posicionam o tanto quanto distantes de uma assimilação real do que traduz o transcendente. Aprisionar o transcender a meras superações socioeconômicas, intelectuais e instintivas psicológicas seria apequená-lo, contudo é quase inevitável por motivos linguísticos e conceituais que o significado seja restrito, esta margem permite polissemias e a falta duma designação singular.

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Joseph Campbell : Professor, escritor, palestrante, antropólogo, e mitólogo. Estudou várias línguas como francês antigo, alemão japonês e sânscrito. Considerado um dos maiores estudiosos de religião comparada. Bacharel em Literatura Inglesa/ Mestrado em Literatura Medieval)


A análise na perspectiva sociocultural é mais superficial e metódica, pois para sua realização independe de uma introspecção pessoal a respeito do transcendente. O alicerce da pesquisa se espelhará nos aspectos visíveis, palpáveis e rotineiros de um cotidiano religioso de determinada região, vilarejo ou individuo, mesmo a fala de um ente que comunga não estará livre do julgo específico de uma pobre visão sociológica. Joseph Campbell, um dos maiores estudiosos do mundo de mito e religião comparada, nos remete novamente as expressões arquetípicas religiosas, mas do que apontá-las, Campbell reconhece que por trás das atitudes hierofantes, encontra-se embutido apontamentos para o transcendente, entranhado nas entrelinhas, esperando pelos perspicazes que possam realmente vivenciá-los. Salienta também, o erro de tomar (sem tal nível de compreensão) um mito, rito ou um local – atividades voltadas para o externo em geral – como um sistema de crenças a ser crível e respaldado como fundamento existencial. Estes são os pilares do sagrado cultural, é o mais presente no nosso mundo, caricato das massas, passível das jogatinas de qualquer interesse social (político e econômico), o mais típico na história humana. A cultura não transcende o indivíduo, pelo contrário, o molda, o limita, o arranja. Assim tem sido – é mister que o ente que busca a transcendência não se deixe ser tragado pelos trapos da imbecilidade cultural (superficial e transitória), a fim de que não tenha como epitáfio ‘‘jaz um limitado (pela boca dos mudos)’’, numa lápide cujo os ecos possam pelas vidas dos surdos serem repercutidos através dos tempos.


A filosofia desde seu primórdio também se ocupou do transcendente; os próprios pré-socráticos que se propuseram a decifrar o funcionamento da natureza, já o faziam com a finalidade de ter uma resposta solida para basear a realidade humana, sempre a partir de observações fidedignas. Logicamente que o conhecimento natural contribuía com o posicionamento do homem sobre si mesmo, mas isto não substituía as indagações sobre a nossa origem e propósito, o desvelar do homem nunca deixara de ser uma meta. A busca do transcendente e da compreensão do universo caminhavam juntos em harmonia, como se dependente fosse uma a outra – isto implica que nossos primeiros físicos e matemáticos estavam mais do que fazendo uma quebra com o paradigma mitológico; a engenhosidade dos fenômenos naturais provava a hierofania em toda a natureza, e o homem como sendo um dos seus participantes, não poderia ficar de fora desta unificação.
Com Sócrates e sua maiêutica, instigadora da juventude, não lhes deram outra saída a não ser a cicuta, martelar os grilhões do panteão das deidades culturais do monte Olímpio demonstrava-se o tanto quanto inadmissível. A proposta da transcendência –‘‘Conheça-te’’ – era (ainda é) vista como algo abominável, corruptível, uma ameaça ao status quo (de outrora e sempre).

Quando a filosofia se expandiu num estopim de correntes ideológicas das mais variadas objetividades, fez-se bastante tangível a corroborar com os propósitos de instituições religiosas, não apenas podendo influenciá-las, como também acabaram servindo de apoio para o fortalecimento de seus dogmas. Um exemplo claro foi a irrefutabilidade aristotélica perante a igreja, seu modelo geocêntrico (oriundo de uma infeliz observação), era tão agraciado que negá-lo seria certo convite ao ígneo purificador de uma fogueira. Ninguém transcende vivendo num Universo cujo sol orbita a Terra.

Tampouco se mostra útil a verborréia sofista, entre tantas outras doxas daquela época ate o vindouro século XIX com o ditatorial positivismo reducionista.
A inquisição institucional católica apavorou os cientistas e o rompimento com as características hierofantes se tornou uma marca registrada da ciência, sua análise por esta desconexão se tornou desequilibrada, o extremismo racional passou enquadrar verdades vigentes; o homem passou a ser visto como uma máquina num mundo previsível e determinista, enquanto a religião ficou com a outra versão, se posicionando do lado oposto num conflito dicotômico.


Durante este processo os doutos viciaram suas escritas em catalogar de ‘‘místico’’ qualquer evento ou ato que fugisse de seus conhecimentos acadêmicos obsoletos, adornados de um reprodutivismo insuportável; nada mais cômodo para o pensamento padronizado desprovido de preciso cuidado investigativo (inclusive a respeito de si mesmos), em suma, não se transcendem e esperam com demasiado orgulho detalhar o transcender de outrem. No fundo, estavam no mesmo nível do leigo que transfere ao desconhecido o título de ‘‘mistérios insondáveis de Deus’’, mas é esteticamente preferível dizer ‘‘ incognoscível’’, pois soa mais filosófico, ou adotam o clichê ‘‘ superstição ’’, ou mesmo a pejorativa ‘‘alucinação’’.

Thomas Young (Milverton, 13 de junho de 1773 — Londres, 10 de maio de 1829) foi um físico, médico e egiptólogo britânico.[1] Em 1801 foi nomeado professor de filosofia natural (principalmente física) do Royal Institution.

Assim que avançavam os estudos da física moderna nos séculos XIX e XX, as descobertas sobre realidade se revelaram mais surpreendentes do que se imaginava; colocaram o homem novamente na travessia do entendimento da natureza e na tradução do seu potencial ao mesmo tempo. Experimentos como o da dupla fenda desenvolvido pelo físico Thomas Young (1805), onde o mesmo comprova a dualidade universal de partícula/onda, findou por revelar que estamos unidos e sincronizados com o universo a partir deste âmbito ondulatório, em contra partida ao modelo separatista newtoniano. O fato do elétron expressar-se como uma ou outra qualidade a partir da particular intenção do físico (observador), demonstra que o princípio consciente reside em todos os níveis, a sistemas macros galácticos à componentes sub-atômicos – a individualidade humana, por consequência, não poderia estar desprovido desta especificidade onipresente, a consciência.

O nível de consciência se relativiza a quantidade de percepção que o individuo tem de sua existência diante as frações capitadas da realidade onde se encontra inserido. A neurociência indica que apenas uma pequena parcela desta é decodificada através dos órgãos sensoriais, das 400 bilhões de informações que o cérebro recebe por segundo, somos cientes somente de 2000 delas, William Blake sabiamente retrucou ”Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito” .

Elohim criando Adão. Pintura de William Blake.

O mesmo método científico de pesagem, medição, do palpável (o ditoso método ”São Tomé”) já não pode negar o significado destes conhecimentos, a perspectiva da consciência renova as diretrizes para o transcendente numa visão em que o ente humano se coloca ao exemplo da matriz (Cosmos), ao caminho do auto-discernimento , alcançando patamares cada vez mais singulares através de méritos individuais . Transcender significa ultrapassar as percepções habituais da realidade sobre a extinção de qualquer sistema de crença (se mantendo livre dos vieses de qualquer paradigma). É irônico que os meios que podem proporcionar trilhas para isto , sempre estiveram ali embutidos em nos nossos antigos mitos e rituais tão rasamente traduzidos, à espera de que o homem pudesse reconhecer e aplicar seus direcionamentos em reconhecimento de si e de tudo – mediante duma consciente hierofania.

Lucas de Sousa Teixeira

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