Estado, a divindade mais cultuada – Secularização

Eliphas Levi , nome de batismo Alphonse Louis Constant, (8 de fevereiro de 1810 – 31 de Maio de 1875) foi um escritor, ocultista e mago cerimonialista francês

FILÓSOFO — Deus, sempre Deus! Não posso sentir esta palavra, ela não pertence à ciência.                                                                              ELIPHAS LEVI — É verdade, pertence à fé; porém, a ciência não pode prescindir-se dela.                                                                                   FILÓSOFO — É o que eu nego.                                                                                 ELIPHAS LEVI — Sim, sem poder provar a força da tua negação.               FILÓSOFO — A ti cabe provar, já que afirmas.                                                   ELIPHAS LEVI — Afirmo que a fé existe e que ela está na natureza do homem. Afirmo que a fé é razoável, dado que a ciência está limitada. Afirmo, por fim, que a fé é necessária, porque, como tu,acredito no progresso. Sem a fé, a ciência não leva senão à dúvida absoluta e ao desgosto por todas as coisas. Sem a fé, a vida não é senão um sonho, que terminará, sem o despertar, no nada. Sem a fé, os afetos são vazios, a honra não é mais do que engano, a virtude, mentira; e, a moral, decepção. Sem a fé, a ciência não é mais do que o despotismo das riquezas; a igualdade é impossível e a fraternidade não existe. “Filósofos do ateísmo, partidários da força cega e da matéria motriz, vós não sois homens de progresso. À um de nossos mestres, no século passado, já fizestes rir; chamava-se Lamatthie e era um dos médicos do rei da Prússia. É triste vos ver malgastar tanto espírito para provar que sois melhor.” Digo-te senhor, não poderias ser dirigido, pois credes na força inteligente e no progresso. A força inteligente é o espírito e o progresso é a imortalidade.                                 FILÓSOFO — Tudo isto não está demonstrado, Porém o que é evidente para ti não o é para mim?             ELIPHAS LEVI — Estendo-te a mão e separemo-nos como bons amigos.                                                           FILÓSOFO — Adeus, pois!                                                                                                                                                 ELIPHAS LEVI — Sim, à Deus! Pois pretendes não crer em Ele apesar de que o invocas sem pensar.”
Eliphas Levi, O Livro dos Sábios. (1870)


Secularização se define pela transformação ou passagem de coisas, fatos, pessoas, crenças e instituições, que estavam sob o domínio religioso, para o regime leigo ou mundano. A presença deste fenômeno tem uma amplitude global; para o olhar sapiente, que já tenha compreendido (após um sério estudo sobre o tema e sobre si), estes elementos são percebidos às centenas num simples e breve caminhar pela cidade. A magnitude destes fatores vão de micro a macro estruturas, construídas a partir das sistemáticas relações realizadas pelo homem em seu habitat planetário.


A Revolução Francesa representa um grande fato histórico secularizador; a tentativa de substituir a instituição decadente religiosa, baseada no modelo feudal e posteriormente no absolutismo, fez florescer um respaldo irrefutável da razão como meio de resolver as problemáticas de todos os níveis, (mesmo sendo a maioria dos filósofos, deístas), os novos modelos políticos preconizavam uma laicização do Estado, separando a religião e suas implicações para uma fronteira dentro desta diretriz. Igualdade, liberdade e fraternidade – o paraíso outrora prometido após a morte pela Igreja, passou a ser prometido em vida. O Estado sabe o que é preciso para o bem comum geral; ele legisla, ele puni, ele promete, ele protege, ele salva. Eis a nova deidade contemporânea, que co-existe junto das demais religiões por ele mesmo separadas, graças a confiança de seus fiéis (cidadãos) e aos cultos diários (impostos) mediante a tremendos sacrifícios (trabalho).

Onipresente. Onisciente. Onipotente. A mídia entra com o papel de missionária, levando a fé (ideologia) para manutenção de seu poderio. Os governantes são os sumo-sacerdotes que estabelecem o intermédio entre Estado e povo (”a voz de Deus”), além de diplomar com os sacerdotes de outras deidades (países), que costumam se divergirem e entrarem em guerra, cujos devotados nacionalistas se despontam a lutar com todo fervor, assim como lutaram os cruzados e os mouros. As ideologias (teologias) destes muitas vezes não batem, assim se justifica um conflito facilmente – O deus do lado de ” lá” é falso, nós temos a verdade, provaremos que temos os princípios felicitados, enquanto o outro, falácias e engôdos (capitalismo vs Socialismo).


O Estado muito se parece com as religiões institucionalizadas que perdem o caráter metafísico, pois muitas destas, tende a atender as vontades carnais e materiais dos indivíduos, ou não se lamenta comumente nos templos pedidos para que Deus não resolva problemas como prosperidade financeira (banco) e saúde (hospital)? Muito se discute atualmente sobre a questão do fundamentalismo (que realmente é absurdo para o século XXI), mas pouco se enxerga o ”fundamentalismo” do Estado, visto que a devoção que o mesmo exige é desonesta e hipócrita perante a ”salvação” que promete a seus seguidores.


A mídia tem uma capacidade fenomenal de propagar cultos a, digamos, ”deuses menores”. Personalidades distintas de cantores, atores, modelos, atletas e etc. são seguidas por milhares de pessoas numa espécie de idolatria ”esquizofrênica”. São inegavelmente adoradas, cultuadas, como se fossem de outro mundo, muitos ate sonham em tocá-los para confirmar se são mesmo reais. Outros querem atingir a mesma fama (iluminação) para também de alguma forma serem referenciados.

Faixa de Gaza

As distrações transmitidas pelos meios de comunicação não escapam deste sentimento religioso. O futebol está recheado de símbolos cujos clubes representam, dignos para alguns, de serem colocados num altar – a bandeira, o uniforme, o mascote.

Existem até especialistas, comentaristas, verdadeiros teólogos do esporte. O ”amor” ao time torna-se um sacerdócio, e quando a paixão toma os sentidos por completo, vemos com frequência as típicas brigas de torcidas organizadas, onde os seus membros se confrontam com pedras e pauladas a fim de massacrar o adorador do clube inimigo, do clube herege, bem como fazem os religiosos na faixa de Gaza. Puro fanatismo religioso.

O ateu respeitador dos valores estatais da sociedade é mais religioso do que pensa. Claro que me refiro aqui a religião limitada na esfera cultural, a religiosidade real liberta tanto das mazelas das crendices das religiões institucionalizadas quanto das pregadas pelas filosofias políticas. Pode se dizer que as pessoas (mesmo muitas com notável intelecto) que não ultrapassam estas visões de mundo, estão num estado de cegueira coletiva perante a existência – dentro dum Estado.


Carl Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço, aponta que a psique humana muito é dirigida por expressões arquetípicas capitadas tanto pelo inconsciente individual quanto pelo coletivo, por isto é tão perceptível ter um ponto de vista tipológico das manifestações de atitudes sociais, políticas e religiosas que se repetem em maior ou menor grau.

Conclui-se que, por mais que o homem tente fugir do âmbito sagrado, este não se extingue de sua existência. Não se pode fugir da própria natureza.

Lucas de Sousa Teixeira

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