Desrespeito a diversidade, uma crise espiritual

”Negras mulheres, suspendendo às tetas Magras crianças, cujas bocas pretas Rega o sangue das mães: Outras moças, mas nuas e espantadas, No turbilhão de espectros arrastadas, Em ânsia e mágoa vãs! ” Navio Negreiro, Castro Alves.

Johann Moritz Rugendas e L. Deroi, “Negros no Porão”

No documentário ”Olhos Azuis” (https://www.youtube.com/watch?v=EuTTAqq3vTY) é possível presenciar os efeitos emocionais de uma pessoa quando esta passa por uma situação semelhante da que diz respeito ao seu pré-conceito. A catarse é inevitável. O que choca é que aja necessidade de tal experiência para que o indivíduo possa ter uma relação empática em relação ao outro. Tal atitude nos mostra mais do que a absorvição de elementos indesejáveis da cultura sem o filtro de um autêntico sentimento de fraternidade humana – uma crise espiritual diante a totalidade da própria existência do ente humano.

Cândido Portinari - Descobrimento do Brasil - Óleo sobre tela - 199 x 169cm - Acervo do Banco Central do Brasil
“O Descobrimento do Brasil” – Cândido Portinari Pintor brasileiro (1903-1962)

O racismo têm raízes profundas, seus ramos seculares se fortaleceram durante nossa trágica trajetória sobre a Terra. É indubitável que o catolicismo tenha uma imensa culpa no cartório, era a bandeira religiosa dos colonizadores europeus, que iniciaram sua difusão pelo mundo a partir do século XV. Maior do que o sentimento de superioridade eurocêntrica, era a ambição da propagação da ” ideologia de civilização avançada”, que viu na estranheza de outros povos – e em sua fragilidade- uma grande oportunidade de explorar seus recursos naturais, sua mão de obra, e de expandir a fé salvadora a fim de redimi-los da condição pecadora. O homem branco ”superior” e ”civilizado” massacrou etnias inteiras, deixando nos registros históricos seus valores deturpados de superioridade étnica, cultural e religiosa.

Sabido que o catolicismo é um desvio do cristianismo primitivo, fundido a diversas filosofias e religiões pagãs, é imprescindível notar a influência destas. O masdeísmo, por exemplo, trouxe a perspectiva de uma realidade dual. A interpretação literal de textos bíblicos somado a ideia, refletida numa luta entre luz e trevas, projetou na mentalidade da época uma associação da cor negra ao mal, mais um fator a contribuir ao sentimento de repulsa aos africanos, cuja a vívida cor de pele caracteriza seus traços mais particulares.

Bula Romanus Pontifex do Papa Nicolau V: “[…] Pela presente carta damos, concedemos e atribuímos, em propriedade perpétua ao dito Rei D. Afonso, aos seus sucessores que viverem no dito reino e ao Infante, as províncias, ilhas, portos, lugares e mares já adquiridos ou que de futuro eles vierem a adquirir […] desde o Cabo Bojador e o Cabo Não […] Dispomos, além disso, que sem especial licença do mesmo rei D. Afonso, dos seus sucessores ou Infante, não possam naqueles mares navegar, transportar mercadorias, ou mandar navegar ou neles pescar […]”.

Também não se pode ignorar o peso dos longos conflitos entre cristãos e árabes muçulmanos para a visão hostil da Europa perante ao Oriente Médio e a África. No início do período das Grandes Navegações havia grande resistência dos nativos da costa africana em aceitar o evangelho, além de alguns grupos tentarem preservar seus cultos regionais, já ocorrera uma considerável expansão da fé islâmica, igualmente resistente a evangelização. Em 18 de Junho de 1452, o Papa Nicolau V concede direitos a Portugal e Espanha de conquistar quaisquer ”pagãos” e mantê-los sob ”servidão perpétua”, isto veio muito a calhar com os propósitos de exploração e enriquecimento nacional, justificando ainda clausulas religiosas para escravidão. Possivelmente que neste período tenha surgido a tolice teológica de condenação da África, a maldição de Cam,

praguejada por seu próprio pai “Maldito seja Canaã, disse ele; que ele seja o último dos escravos de seus irmãos!” (livro do Gênesis 9, 25), garantindo a conformação dos africanos como escravos; cujo trabalho forçado lhes serviriam como libertação do paganismo e das impiedosas chamas do inferno.

Escravidão grega
Escravidão romana

O clichê a respeito da escravidão da África, onde se ressalta a realização da prática pelos próprios autóctones, é um fato que, apesar de verídico, causa uma fuga de um olhar crítico em relação a própria história européia, como se esta estivesse desprovida de toda semelhante imundice dentro de sua íntima fronteira. Para estes, a escravidão grega, a romana e desumanidade da servidão feudal parecem o tanto quanto irrelevantes. Há de se refletir. Nada justifica. Independente da época e de seu contexto sociopolítico e religioso, nada justifica.
A questão da alma do negro e do nativo foi ”resolvida” com a bula papal de Paulo III em 1537, onde estas etnias de seres humanos saíram da categoria de animais (como se estes não tivessem alma – outra herança católica que reflete a maneira em que tratamos os animais atualmente, como ”desalmados”).


A partir destas breves descrições, uma questão fica a pairar: Onde é que está o amor pregado por Cristo? Certamente não está no homem, nem na sua história, tampouco nas suas religiões. Isto é uma crise espiritual – Inegável. Os valores racistas foram fomentados e passados de geração à geração, está entranhado, emaranhado pela perpetuação da cultura danosa, da tradição irreflexiva, e pela alienação regida à fome insaciável de poder. A humanidade não consegue respeitar sua própria diversidade, imagina se seria capaz de aceitar a diversidade que possa existir ”lá fora”. Se o homem não estivesse cego poderia enxergar que há uma cor que transcende a própria cor – o brio de humano ser diante de tudo que aparenta nos separar.

Lucas de Sousa Teixeira

Frase com imagem Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor de sua pele

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